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Como esconder ou evitar a timidez.*

Posted in artigos, Referências with tags , , on agosto 17, 2009 by contarestorias

Estátua de Perseu com a cabeça de Medusa.

Estátua de Perseu com a cabeça de Medusa.

Como esconder ou evitar a timidez.*

Por Eduardo Abreu Silva


“Mal vi o teu rosto,

O sangue gelou-se,

A língua prendeu-se,

Tremi, e mudou-se

Das faces a cor.

Marília escuta

Um triste Pastor.”

(Lira IV, da Obra “Marília de Dirceu”

por Tomás Ant. Gonzaga)

Publicado em 1792, esse texto acima é um trecho de um conhecido poema de Tomás Antônio Gonzaga, referência do Arcadismo mineiro.Nesse deslize de realismo, o poeta arcadista nos oferece uma clássica descrição dos sintomas físicos pelos quais passam um indivíduo tímido. Neste caso, a timidez causada pelo desejo maior do que a ação. Pela vontade exagerada e nenhuma atitude.

Por amor ou por outro qualquer motivo, ela, a timidez, acompanha a própria história da humanidade, não existindo nenhum povo ou país onde não se encontrem indivíduos com atitudes ou mesmo momentos de timidez.

Contra a timidez existe a fuga, mas ela nunca resolve o problema. Como um tímido em recuperação, eu mesmo tenho um estoque de “desculpas” e “explicações” que me serviram de muleta para escapar dos momentos em que a timidez me punha contra a parede.É assim mesmo, ingrata e solitária é a batalha de um tímido. Tendo de buscar sozinho, formas e fórmulas para resolver esse problema.

Um dia, cansamos de tanto fugir e deixamos de lado as desculpas e iniciamos um caminho para construção de atitudes mais seguras.

Por sorte, essa estrada é totalmente sinalizada, pois por ela já caminharam e ainda caminham outras tantas pessoas que silenciosamente lidam com a timidez. Pessoas como eu e pessoas como você. Dessa forma ela se mostra menos solitária do que pensam, mas ainda sim continua difícil. Somente um tímido crônico para entender outro. Vamos adiante! Como eu disse acima: Nós temos uma BATALHA.  Contra quem? Quem é o inimigo?

Nosso inimigo é a timidez. Um monstro que nos inibe e impede de ser e agir como queremos nos momentos em que mais precisamos.

Como a Medusa, criatura da mitologia grega. Uma górgona, como era chamada, com cobras ao invés de cabelos em sua cabeça que ao ser encarada transforma qualquer um em pedra.

Nossa timidez, é assim, nossa Medusa particular. Quando encarada, seu olhar nos gela a alma e nos endurecem os movimentos. Seca a boca, acelera o coração e prende a voz na garganta.

Voltando a mitologia, por mais horrenda ou poderosa que ela fosse, Medusa encontrou um adversário que a venceu. Mesmo sendo filho de Zeus, o corajoso Perseu não era capaz de enfrentar o seu medo sozinho. Para essa batalha, contou com três presentes dado por três deuses:

– Hades, O Deus do mundo inferior e responsável pela germinação das sementes, deu-lhe um capacete que o tornava invisível.

– Hermes, O deus da Eloquência, O Deus Mensageiro, deu-lhe suas sandálias aladas, as talarias.

-Atena, A Grande deusa da sabedoria, deu-lhe um escudo, que de tão polido e brilhante permitiu que visse o reflexo daquilo que lhe dava tanto medo, assim, sem enfrentar ele venceu a Medusa, a górgona com cabelos de cobra.

Essas armas que foram de Perseu, podem servir utilmente a um indivíduo que deseja “enfrentar”, mesmo que não seja de frente (como fez Perseu) a razão de sua timidez.

O capacete de Hades que dá o poder de ficar invisível, é a própria imaginação a nosso serviço. Concentrando-se na essência e não na aparência conseguimos um pouco mais de confiança. O tímido assusta-se com o monstro em sua frente e geralmente tem receio do julgamento que possivelmente farão de seus atos. Estar invisível é a maneira segura de superar o primeiro instante, pelo menos na imaginação funciona.

As sandálias aladas de Hermes. Como dito, o Deus da Eloquência. Eloquência conseguida através da prática. Prática que necessita ser diária ou no mínimo em doses homeopática sempre que possível. Uma oportunidade pequena depois da outra, é assim que construímos a tão desejada personalidade comunicativa. Eloquência é habilidade, ou seja, se desenvolve somente na prática, no exercício constante.

E finalmente, a sabedoria de Atena, o escudo que reflete a imagem do medo fazendo-o ficar menos assustador. Todos têm medo. Aqueles que dizem não terem o mínimo de timidez, na verdade tem o mínimo de consciência. Sentir-se inseguro é tão humano quanto sonhar. E como os sonhos, nossos medos tem mais relação com a fantasia do que com a realidade. Daí a importância da sabedoria em “não pintar o monstro mais feio ou maior do que realmente é”.

Somente Perseu, ou mesmo o enamorado Dirceu para explicarem a força negativa que a timidez teve em suas vidas. Talvez eles tenham sorte em serem personagens em uma história, mas nós que os lemos, em suas histórias encontramos correspondência com nossas próprias histórias, medos e inseguranças.

Por sorte, encontramos também dicas e possíveis soluções para nossos problemas, no caso: timidez.

Com as armas de Perseu poderemos também derrotar nossas Medusas-particulares.

* Texto criado como resposta a uma pergunta feita por uma professora sobre como enfrentar a timidez.

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